Cafezinho #11 - Tem uma foto minha criança no corredor da minha casa.
e na sua casa também.
Tem uma criança sentada em meio às flores, de jeans e moletom azul, tênis brancos e cabelo enroladinho. Sentaram essa criança com carinho na grama em frente a um jardim colorido e bem manicurado.
Por trás da câmera, três adultos fazem micagens pra que ela sorria. A câmera analógica faz um barulho, o flash brilha, ela volta para o colo da mãe e a viagem continua. Anos depois, essa viagem vira uma memória distante e a foto, revelada e emoldurada em tamanho A3, é colocada no canto porque a criança cresceu.
Mas, na hora de me mudar de casa, eu acho essa foto e não quero deixar ela de lado.
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De certa maneira, essa menina é muito mais eu do que eu mesma era anos atrás. Quanto mais eu penso em voltar pra mim (como eu gosto de me vestir? como eu gosto de agir com os outros? quem eu realmente gosto de ser?), mais eu retorno pra base de como uma criança vê o mundo: disposta a amar sem medo.
Quando adulta, por um tempo, eu cheguei a acreditar em quem dizia que eu precisava ser diferente porque “a vida era dura” e “as pessoas machucam” — máximas empoeiradas, muito mais velhas que eu. Até passei uns anos sendo assim: duvidei, me afastei, fui ríspida e ácida. O lucro nunca veio…
… a não ser que você considere uma boa se ver sozinha em casa, sem ter com quem contar, com quem desopilar ou descobrir algo diferente da sua vidinha. Essa dita proteção acabou sendo uma casca duríssima, quase intransponível após certo tempo de curtição dessa fossa.
Fica realmente mais fácil afastar todo mundo quando você assume que os outros são uns filhos da puta. Ninguém mexe com você e, quando se atrevem, você fala umas poucas e boas (ou escuta os outros falarem outros podres da pessoa pra você). Algumas pessoas também estão nessa vibe… aí é questão de tempo até vocês dois irem aos finalmentes.
Mas o cerne nunca muda. Cercada de aflições, sonhos que podem ou não ter se desenrolado, preocupações, anseios e vontades, a criança que você foi um dia ainda está lá. Sentada em um jardim florido, posicionada por qualquer uma das pessoas que te amou um dia, te lembrando como é que se sente sem querer algo em troca, como se sofre sem querer retribuir na mesma moeda, como se vive sem querer algo além do que é o certo e o melhor.
No meu caso, o amor dos meus pais não surgiu do nada: foi ensinado a eles e passado pra mim pra que eu o usasse em tudo que faço: cozinhar para uma amiga, fazer carinho na barba de um namorado, assar um pão pra vizinha, escolher uma profissão onde seja possível exercer algo com esse intuito… é um amor infinito e sincero que, mesmo que por (várias) vezes não seja retribuído, segue intacto porque eu sei que fiz o que senti que era certo.
Leitor dos meus quadrinhos e textos, minha vida está mudando bastante. São coisas da vida e da passagem do tempo que todos nós sentimos uma hora ou outra. Eu escrevo, desenho, faço reunião, envio o rascunho, abraço, beijo, refogo o arroz, hidrato o cabelo e as mudanças nunca param de se desenrolar.
🌼
Para Desopilar o Fígado
Nesse carnaval, fugi pro mato e passei quatro dias cercada de vacas, búfalas, cafézinhos, queijo caseiro e a minha família. Foi bom pra desconectar e, de quebra, ver como eles fazem os queijos mais gostosos que já comi.
É muito útil carregar um caderno pequenininho e algumas canetas (estou usando um A6 da Canson, de apenas 24 páginas. Cabe na bolsa e no bolso da calça). Em alguns momentos se rascunha uma nova página e, em casa, é só finalizar o desenho.
Depois me fala de qual delas você mais gostou?
Obrigada por estar aqui.
Um beijo,
Cecilia.







adorei essa edição! a reflexão e os desenhos todos 💜
Também tenho uma foto minha criança, pendurada na sala de casa. E ler esse texto me fez ver a foto com um olhar ainda mais doce e familiar. Obrigado, Cecilia.